RELIGIÃO E ESPIRITUALIDADE

Meu contato com a religião começou muito cedo, eu venho de uma família religiosa onde meu pai pertence ao catolicismo e minha mãe a uma religião bem ortodoxa. Logo que as palavras me começaram a fazer sentido, fui apresenta às orações. Logo que a vida se iniciou fui apresentada aos dogmas da igreja ortodoxa.

Na minha infância eu fui ensinada a aceitar tudo que me era dito na igreja, aos ensinamentos sobre Deus e sobre o Diabo, sem ter o direito do questionamento. Aprendi o que era de agrado de Deus, e me aproximaria Dele, e o que era de Seu desagrado, e deixaria o Demônio e seus companheiros, os espíritos, saltitantes de alegria – na sua disputa com Deus, ele estaria ganhando pontos, caso meus atos fossem desobedientes.

Na adolescência, os questionamentos vieram com força total, o que fez com que o Padre quase pirasse com as minhas dúvidas, e que suas respostas esgotassem. A resposta final era sempre “porque Deus quis assim e acabou”. Totalmente descrédula, me tornei ateia e a Biblia passou a ser um livro de histórias mirabolantes, que não fazia sentido.

Deus, um Deus que tinha me criado, que é um Deus de amor, não podia ser o Deus guerreiro do primeiro Testamento, não podia ser alguém que me julgasse, oras me amasse, oras me jogasse a esmo. Afinal, era ele que tinha me criado assim. Não podia acreditar que ele não entenderia as minhas falhas.

De ateia passei a estudiosa, estudei muitas e muitas religiões, seitas e grupos esotéricos (foi muita confusão mental em meio a tantos ensinamentos),  mas foi quando entrei para o mundo do Yoga, que o contato com o Criador voltou a fazer sentido.

Um novo olhar de forma mais sutil para todo o mundo, para todas as formas, para a energia dos seres e a Energia Criadora, desabrocharam naturalmente uma espiritualidade em mim.

O respeito por todos os seres, todas as crenças, o respeito pelo poder de questionamento e raciocínio, a utilização da lógica para a compreensão do mundo ao meu redor, me fizeram com que sentisse do fundo do coração que estava no caminho que sempre pedi a Deus nas minhas dúvidas e questionamentos sobre a vida.

Era esse o caminho de amor e conhecimento. Uma forma de aprender sobre a vida e sobre mim mesma, que não excluísse a forma de pensar dos meus semelhantes. Um caminho que abraça todas as formas e todos os seres.

Nestes passos eu me aproximei do meu Criador, e percebi que eu surgi Dele mesmo, que não somos diferentes. Portanto, ele não é um julgador, e hoje não preciso aceitar dogma algum, pelo contrário, estou no caminho do conhecimento da própria liberdade presente na minha vida. Aprendendo que sou essa pessoa livre e simples, que não está errada nas confusões da sua mente, que não está sendo julgada como um ser errôneo, mas abraçada pela própria Criação, pelo próprio Criador.

Esse é o caminho da espiritualidade. Para mim essa é a forma que me abraça, que me contenta, que me ensina. Acredito também que a religião faz muito bem para muita gente, trazendo o conhecimento de algo maior, que alivia a nossa impotência perante a vida. Tanto a espiritualidade quanto as religiões despertam a gratidão, a entrega.

Aprendi a me integrar, a entregar e a respeitar as diferenças todos os seres. O que vem da plenitude, é plenitude.

Om pūrṇamadaḥ pūrṇamidaṁ
pūrṇāt pūrṇamudacyate
pūrṇasya pūrṇamādāya
pūrṇamevāvaśiṣyate

Om. Isto é Plenitude, aquilo é Plenitude.
A Plenitude que surge da Plenitude é realmente plena.
Tirando-se a Plenitude da Plenitude, somente Plenitude permanece.
Que haja paz.

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Das Reviravoltas da Vida

Minha família me proporcionou uma estrutura muito sólida de desenvolvimento, tive minha infância e minha adolescência com total apoio dos meus pais, meus super pais. Minha mãe me superprotegeu o máximo que pode, por todas as dificuldades e sofrimentos que teve em sua vida, ela jurou que faria de tudo para que sua filha jamais passasse por nada parecido. Meu pai jamais me negou algum pedido, e me protegia de tudo e de todos, com toda a sua vontade.

Minha redoma foi criada desde a infância, o contato que eu tinha com o mundo era como que passado por filtros e filtros, e eu vivi num lindo conto por tantos anos. Basicamente a minha vida era sustentada, apoiada, protegida, filtrada – e isolada numa realidade da alta classe média, num belo bairro ao Sul do país.

Recebi poucos ”não” até meado 18 anos de idade. Idade a qual iniciou a reviravolta da minha vida.

Pelos meus 18 anos, no auge das minhas dúvidas, problemas e aversões, minha mãe, a minha base e meu porto seguro, havia feito um investimento para um imenso projeto que parecia inabalável, o qual por ironia do destino veio a dar errado.

Todo o investimento de reservas de uma vida inteira falhou, e vi o ser humano mais forte e incrível que eu conhecia, literalmente desmoronar. Foi uma sensação de impotência difícil de descrever.

Minha mãe ao ficar numa situação financeira congelada e por na época do projeto ter ido aos altos da euforia, entrou numa depressão profunda. E assim foi o início de uma sequencia de problemas, decepções, perdas e reclusão. Minha mãe teve o quadro de depressão muito agravado nos meses subsequentes e acabou sendo internada em uma clínica hospitalar, e outras, e outras.

Aos 19 anos me enxerguei como uma criança completamente abandonada, que não teve a vida preparada para as adversidades da vida. Me sentia sozinha e uma tristeza profunda tomou conta de mim, me sentia fraca emocional e fisicamente.

E a vida mostrou-me seu furor. A menina que sempre teve tudo que queria, enxergou seus pais na falência. Foram muitos meses de privações e situações constrangedoras. Na falência a maioria dos amigos sumiram. Os familiares ligavam algumas vezes para saber se estávamos bem, pois cada um também tinha os seus problemas. A minha necessidade por acolhimento, carinho e lazer,  foram completamente abandonadas. Eu me sentia muito frustrada por não poder estar com meus amigos, sentia vergonha por tudo que estava passando e me sentia sufocada por não ter com quem conversar sobre as minhas angústias.

Foi uma fase difícil, em que minha mãe se despediu de mim diversas vezes, me avisando que não desejava mais viver. A minha necessidade por segurança veio as ruínas, e por fim eu entrei em depressão também, mas não da mesma forma aguda. Nesta época eu já praticava Yoga e confesso que foi o que me deu algum tipo de força pra continuar. Pois eu não tinha nem situação financeira para ir a um psiquiatra, nem força de vontade para querer procurar ajuda.

Eu senti muita raiva e rancor da vida, de Deus e do mundo. Me perguntava diversas vezes do porque de tudo isso, do porque continuar e não encerrar toda dor naquele momento. Mas ainda restava amor dentro do peito, por algumas pessoas, pela natureza, pelos animais. A forma doce e profunda com que a minha cachorrinha me olhava me enchia de esperanças pelo menos nestes pequenos seres, que não nos abandonam nas horas pesadas.

Graças ao Yoga e a algumas poucas amigas (que havia feito dentro do Yoga), e a alguns poucos familiares, todos estes podemos contar nos dedos das mãos, eu tive forças para prosseguir.

Ao todo foram 10 anos de depressão que a minha mãe passou e hoje a consideramos praticamente curada, pois ainda está em recuperação, mas já toma as rédeas da sua vida novamente.

O que eu precisava nessa fase difícil era de amor, de apoio, de acolhimento. Era um colo para poder desabar e desabafar e alguém que não me julgasse, uma mão amiga para ajudar nas horas dos obstáculos mais difíceis e alguém que me desse um norte, que foi o papel que meus professores tiveram.

Hoje eu enxergo o quão determinante foi essa fase para o meu amadurecimento espiritual, foi neste ponto que a própria vida não fazia mais sentido. Vieram as crises existenciais, os questionamentos e as brigas com Deus, as perguntas sobre o propósito da vida e, por fim, a minha entrega total aos pés Dele para entender mais sobre a vida, para pedir um norte, uma guia. Foi a desconstrução de um mundo surreal em que vivia, para a abertura de um mundo que está sendo reconstruído passo-a-passo, em conhecimentos e aprendizados, em meio a todas as dificuldades dos altos e baixos, mas na diferença de um desperto novo olhar.

Om

Como Yoga e Vedanta Entraram na Minha Vida

Entrei para o Yoga há 11 anos, simplesmente porque aquelas posturas que via em fotos me intrigavam; achava bonito e interessante. Havia um studio recém inaugurado aos arredores da minha casa, e realmente, foi amor a primeira aula.

No primeiro mês de aula eu já pude perceber que era aquilo que eu queria para a minha vida. A sutileza das aulas, as palavras dos professores, o contato com a minha respiração e com os movimentos, me tocaram de uma maneira tão diferente e transformadora. A sensação de bem estar, felicidade e contentamento após as aulas associada ao que aquelas primeiras frases representaram para mim, foi definitivamente o que me fizeram despertar para algo mais.

Assim, iniciei meu caminho no Yoga. Intensamente comecei a praticar e a estudar, a me interessar cada vez mais por este estilo de vida e seguir na direção de todo conhecimento que percebia que ali existia. Essas aulas me proporcionaram um olhar diferente perante a vida, meu modo de viver e meus relacionamentos. Comecei a ter um olhar mais sutil, a ter ainda mais questionamentos sobre a minha existência. Boas mudanças aconteceram, a vontade de ser vegetariana brotou rapidamente, a disciplina, os cuidados com o corpo e a vontade de aprender mais. Permaneci fiel e rigidamente em apenas esse segmento de Yoga por sete anos. No sétimo ano, novos questionamentos surgiram e outras percepções me foram aguçadas – era a hora de mudanças e novos passos.

Após encerrar essa etapa de estudos, mergulhei num mundo de estilos e práticas de Yoga distintas, uma confusão de ensinamentos que me levou ao questionamento do real caminho que me levaria em direção ao autoconhecimento. Foi quando conheci o primeiro professor que me apresentou o ensinamento de Vedanta, o Pedro Kupfer. No curso para formação de professores conheci os textos e alguns dos ensinamentos que meu professor havia aprendido com o Swami Dayananda e com a Glória Arieira. Foi a segunda parte do meu amor a primeira vista. Ali conheci o que de fato mudaria a minha vida – começou o ensinamento de Vedanta.

Em 2013, meu parceiro de vida e de estudos, Bruno Jones, me orientou e apresentou ao Vidya Mandir, aonde tive minhas primeiras aulas de Vedanta com a Gloria. Ali tive um novo olhar, uma transformação incrível na minha percepção sobre Yoga. A partir dos estudos iniciais de Vedanta, a minha vida de Yoga mudou completamente. Meu foco já não era mais as práticas fortes e as séries intermináveis. Entendi que o corpo de ensinamento de Yoga e Vedanta era muito maior do que o meu tapetinho me apresentava. Em seguida tive a oportunidade, mesmo morando longe, de poder seguir meus estudos e iniciar um aprofundamento de Vedanta, com o professor Jonas Masetti, pelo Vedanta Online.

Vedanta e Yoga são o direcionamento do meu caminho. Esse corpo de conhecimento me guiou no meu propósito de vida, no propósito da vida. Pela primeira vez, minhas questões existenciais tiveram resposta. Hoje não sinto mais a necessidade de fugir da humanidade, dos problemas, das dificuldades. Hoje eu guio meus passos na certeza de estar fazendo o que deve ser feito por mim. Com uma mente mais focada, mais tranquila eu observo a minha vida. Deixei de achar a vida injusta, e tomei as rédeas do meu caminho e de todo aprendizado em cada passo, cada obstáculo. Deixei de reclamar dos meus pais, das injustiças do mundo, da minha família, do governo, das pessoas. Hoje eu compreendo que existe uma ordem, uma inteligência em toda a vida, em todo universo. Eu dou valor a quem eu sou, exatamente como eu sou, deliberadamente abri mão de querer me culpar ou me julgar pela minha humanidade imperfeita, pelos erros das minhas ações e o mesmo para os meus semelhantes.

Pela primeira vez na vida eu realmente entendi profundamente quem é esse Deus e Criador, e pude enxergar a divindade em cada criaturinha, de cada parte dessa existência. E gostei Dele, apreciei a Sua Ordem. Gostei de mim, de quem verdadeiramente Eu Sou.

A devoção pela vida brotou espontaneamente no meu coração, o que me aproxima dessa força criadora, o que me deixa entregue a ordem que me é apresentada a minha própria vida. Eu não crio mais resistências, eu aprecio, silencio e oro. Me entrego com confiança a vida, com amor. Aprendi a servir e retribuir tudo que me foi dado e ensinado, e somente tenho a agradecer por tudo isso.

Harih Om

Esse texto sobre o encontro com Vedanta foi escrito por Bianca Ordahy